sábado, 22 de dezembro de 2012

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas - Robert M. Pirsig



Cometi equívoco quando decidi postar no "O Antarquista" alguns trechos do livro “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”, de Robert M. Pirsig. A “natureza” do erro é a mesma da ocasião em que estive em Lisboa para apresentar o primeiro livro que publiquei: levar adiante a crença de que as obras deveriam falar por si próprias e que o autor, exposto durante uma sessão de lançamento, não poderia ser levado em conta para julgamento de qualidade ou pertinência da obra. Ora, faça ele malabarismos ou simplesmente a leitura de algumas páginas, não dirá a respeito do livro mais do o bastante para que conquiste a simpatia ou antipatia dos presentes. O malabarismo provavelmente causará simpatia, mas o livro seguirá sendo uma incógnita. As páginas lidas, por mais que deem ao ouvinte uma ideia sobre a obra, estão fora de contexto e são pouco para dizer o que ela é.

O silêncio e consequente desconforto que provoquei durante a sessão em Lisboa podem ser igualmente justificados pela minha inexperiência (era a primeira vez que eu apresentava algo que escrevera) e  dificuldade em falar em alto tom para que mais do que três ou quatro pessoas ouçam de modo inteligível. Os posts sobre o livro do Robert M. Pirsig, no entanto, foram publicados sem qualquer explicação, resumiam-se a trechos da obra. Não há justificativa que explique por que não previ que o título poderia levar a alguma confusão. Recebi e-mails e comentários sugerindo ou perguntando se eu me tornara zen-budista, por exemplo, sendo que o livro é da autoria de um filósofo ateu (ou seria melhor dizer agnóstico?). 

A confusão é compreensível! Após o razoável sucesso de venda do “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”, vários autores que nem sequer o leram, aproveitaram-se “da onda” na tentativa de vender as suas próprias obras de autoajuda, empreendedorismo etc. Surgiram livros como: Zen e a Arte da Felicidade, Zen e as Aves de Rapina, O Zen e a Psicanálise, O Zen de Steve Jobs, Zen e a Arte da Fotografia, Zen e a Arte da Escrita e por aí vai. O livro do Robert M. Pirsig, porém, foi publicado pela primeira vez no final dos anos 1970, ou seja, muito antes de todos os outros. Trata-se de um livro autobiográfico de filosofia e não sobre o zen-budismo. 

O “Zen” do título é mera referência a uma contraposição de “linhas de pensamento” proposta pelo autor. Robert M. Pirsig acredita que há duas maneiras primárias de se enxergar o mundo e a sociedade e que todas as outras se encaixam nas primeiras.  Ele denomina a primeira “linha” como “Romântica” e a exemplifica citando o modo de pensar dos zen-budistas (budistas, hinduístas, hippies, etc.); e, a segunda, como “Mecanicista” (daí o “Manutenção de Motocicletas” que o autor usa no título para denominar o pensamento que se coaduna ao racionalismo de Descartes, à Mecânica de Newton, ao Método Científico, etc.).

O autor expõe o conflito entre as "correntes de pensamento" e pressupõe a necessidade de uma adequação, uma vez que, segundo ele, grande parte dos problemas modernos surge ou não encontra solução devido às discordâncias. Robert Pirsig investiga desde o embate entre socráticos e sofistas, passando pelo pensamento de Platão, Aristóteles, Hume, Kant... até chegar nos dias atuais, usando a figura de Fedro como protagonista e como cenário uma viagem de motocicleta que o próprio Pirsig fez tendo o seu jovem filho na garupa. Assim como “disseca” o “Pensamento Romântico”, Robert M. Pirsig analisa o “Método Científico”. Abaixo segue trecho do livro e aos poucos atualizarei este post incluindo outras passagens da obra:

"Naquela noite eu disse a Chris que Fedro passara a vida inteira perseguindo um fantasma. É verdade. Era o fantasma inerente à tecnologia, a toda a ciência moderna, a todo o pensamento filosófico. O fantasma da própria racionalidade. Contei a Chris que ele tinha encontrado o fantasma e que o havia destruído. Creio que, num sentido figurado, isso é verdade. O que desejo revelar, à medida que prosseguimos, são algumas das coisas que ele descobriu. Agora os tempos são outros, e pode ser que alguém encontre nestas ideias alguma validade. Naquela época, ninguém via o fantasma perseguido por Fedro, mas creio que hoje cada vez mais pessoas o veem ou entreveem nos maus momentos, um fantasma que se denomina racionalidade, mas cuja aparência é de incoerência e falta de significado, fazendo com que a mais normal das ações cotidianas pareça meio despropositada, devido à sua total irrelevância em relação ao restante das coisas. Esse é o fantasma dos pressupostos normais de cada dia, que declaram que o objetivo final da vida, que é sobreviver, não pode ser alcançado, mas continua a ser o objetivo final, de qualquer maneira, e assim os grandes homens continuam a curar as doenças para que as pessoas possam viver por mais tempo. Só os loucos questionam isso. A gente vive mais para poder viver mais ainda. Não há outro objetivo. É o que diz o fantasma.
[...] A formação de hipóteses é a fase mais misteriosa do método científico. De onde elas vêm, ninguém sabe. A pessoa está sentada num lugar qualquer, pensando na vida, e de repente – zás! – passa a entender uma coisa que não entendia antes. Até ser testada, a hipótese não é verdadeira, mas ela não provém de experiências. Origina-se em outro lugar. Disse Einstein:
“O homem tenta elaborar para si mesmo, do modo que melhor lhe pareça, uma descrição simplificada e inteligível do mundo. Depois, tenta até certo ponto substituir o mundo da experiência por esse universo por ele construído, para poder dominar toda a natureza... Ele faz desse universo e da sua construção o centro de sua vida emocional, para encontrar, assim, a paz e a serenidade que não consegue dentro dos limites a ele impostos pelo turbilhão da experiência pessoal. O objetivo último a ser atingido é chegar àquelas leis elementares universais a partir das quais o universo foi construído através de pura dedução. Não há um caminho lógico que conduza até essas leis; apenas a intuição, baseada no conhecimento afetivo da experiência, pode conduzir a elas...”
Intuição? Afetividade? Palavras estranhas para descrever a origem do conhecimento científico.
Alguém que fosse menos cientista que Einstein teria dito: “Mas o conhecimento científico vem da natureza. É a natureza que fornece as hipóteses.” Einstein, porém, sabia que não é assim. A natureza só fornece dados experimentais.
[...]O rompimento de Fedro com o sistema lógico ocorreu quando, em consequência de algumas experiências de laboratório, ele se interessou pelas hipóteses como entidades em si mesmas. Ele já havia percebido várias vezes, no seu trabalho de laboratório, que o que poderia parecer a parte mais difícil do trabalho científico, a criação das hipóteses, era sempre a mais fácil. O simples ato de anotar formalmente tudo, com a maior precisão e clareza possíveis, já parecia sugerir as hipóteses.
[...]No começo, ele achava aquilo divertido. Inventou até uma lei gozadora, no estilo das Leis de Parkinson, segundo a qual “o número de hipóteses racionais que podem explicar qualquer fenômeno dado é infinito”. Foi só meses após ter criado essa lei que ele começou a ter algumas dúvidas sobre a graça ou utilidade que ela teria.
Se fosse verdadeira, a lei não detectaria uma simples escorregadela do raciocínio científico. Seria completamente niilista, uma catastrófica refutação lógica da validade geral de todo o método científico!
Se o propósito do método científico é selecionar uma dentre inúmeras hipóteses, e se o número de hipóteses cresce tão rápido que o método científico não pode controlá-las, fica claro que nunca se poderão testar todas as hipóteses; os resultado de qualquer experiência serão, portanto, incompletos, e o método científico inteiro deixa de alcançar o objetivo de estabelecer um saber comprovado.
Einstein comentou, a respeito, que “a evolução mostrou que a qualquer momento há sempre uma hipótese que se destaca, por ser nitidamente superior às outras”, e ficou por aí. Mas para Fedro, tal resposta não era ainda satisfatória. A frase “a qualquer momento” causou-lhe profundo impacto. Será que Einstein acreditava que a verdade era uma função do tempo? Afirmar isso seria o mesmo que arrasar o pressuposto mais básico de toda a ciência.
E, no entanto, isto se observa em toda a história da ciência, que é nitidamente uma sucessão de explicações sempre novas e mutáveis sobre os mesmos velhos fatos. (...) quanto mais hipóteses, menor o tempo de vida da verdade. E o que parece estar fazendo com que cresça o número de hipóteses nas últimas décadas é nada mais nada menos que o próprio método científico. Quanto mais se olha, mais se vê. Ao invés de selecionar uma verdade dentre uma quantidade de hipóteses, aumenta-se essa quantidade. Logicamente, isso significa que, ao se tentar alcançar a verdade imutável através da aplicação do método científico, não se realiza qualquer progresso. Pelo contrário, passamos a distanciar-nos dessa verdade!
Aquilo que Fedro observou a nível pessoal era um fenômeno bastante característico da história da ciência, omitido durante anos. Os resultados previstos da pesquisa científica e os resultados reais estão diametralmente opostos neste ponto, e ninguém parece prestar muita atenção a este fato. O objetivo do método científico é selecionar uma dada verdade dentre muitas verdades hipotéticas. A ciência consiste essencialmente nisso. Historicamente, porém, a ciência faz exatamente o contrário: através de um acúmulo descomunal de fatos, dados, teorias e hipóteses, é ela mesma quem está levando a humanidade das verdades únicas e absolutas para as verdades múltiplas e relativas. O principal gerador do caos social, da indecisão do pensamento e valores que o conhecimento racional se destina a eliminar é nada mais nada menos que a própria ciência. O que Fedro percebeu no isolamento do seu trabalho de laboratório há anos atrás é percebido agora em todas as partes do mundo tecnológico. Anticiência produzida cientificamente. Um verdadeiro caos."

(Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, by Robert M. Pirsig. Paz e Terra, 1984.)

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